
Crise Epiléptica em Crianças: O Que Fazer Passo a Passo
Presenciar uma crise epiléptica em crianças assusta qualquer adulto — principalmente na primeira vez. A boa notícia: os primeiros socorros são poucos passos, fáceis de memorizar, e não exigem nenhum equipamento. Na maioria das vezes, a crise termina sozinha em poucos minutos. O seu papel não é interromper a crise, e sim proteger a criança de quedas e engasgos, observar o tempo e saber a hora de pedir ajuda. Neste guia prático, você vê o que fazer durante a crise, o que nunca fazer, quando chamar o SAMU e como agir depois que tudo passa.
O que é uma crise epiléptica em crianças
A crise epiléptica é uma descarga elétrica anormal e temporária no cérebro. Ela pode aparecer de formas diferentes. A mais conhecida é a convulsão, com perda de consciência e movimentos involuntários; também existem episódios focais, em que só uma parte do corpo se mexe ou a criança tem uma sensação estranha sem perder totalmente a consciência; e episódios de ausência, em que a criança apenas "desliga" por alguns segundos, para de responder, fica com o olhar fixo e depois retoma a atividade como se nada tivesse acontecido. A maior parte desses episódios dura de 1 a 3 minutos e se encerra sozinha.
É importante separar dois conceitos. A Sociedade Brasileira de Pediatria explica que a convulsão é um sintoma que pode ser desencadeado por fatores como febre alta, privação de sono, queda de açúcar no sangue ou alterações metabólicas. A epilepsia é o diagnóstico dado quando os episódios se repetem de forma espontânea, sem um gatilho claro. Nem toda criança que tem uma crise tem epilepsia, e um episódio isolado nem sempre volta a acontecer.
Alguns gatilhos são conhecidos, e um dos mais comuns é dormir mal: entender e tratar os transtornos do sono na infância faz parte do cuidado de uma criança com epilepsia. Seja qual for a causa, durante o episódio não dá para interrompê-lo segurando a criança ou chamando por ela — por isso o foco dos primeiros socorros é proteger, não interromper.
O que fazer durante uma crise epiléptica: passo a passo
Se a criança está tendo uma crise com movimentos involuntários e perda de consciência, siga esta sequência:
Mantenha a calma e fique ao lado da criança. A maioria dos episódios passa em 1 a 3 minutos.
Coloque a criança deitada de lado. Essa posição deixa a saliva escorrer e reduz o risco de engasgo.
Afaste objetos duros ou pontiagudos ao redor: móveis, brinquedos, óculos.
Proteja a cabeça com algo macio — uma blusa dobrada, uma almofada ou o seu próprio colo.
Afrouxe roupas apertadas no pescoço, como gola, gravata de uniforme ou capuz.
Não segure os movimentos e não tente "acordar" a criança. Deixe a crise seguir seu curso.
Marque o horário de início. A duração do episódio é a informação que o serviço médico mais precisa.
Observe como o episódio acontece: que parte do corpo se mexe, se os lábios ficam arroxeados, se há perda de urina. Esses detalhes ajudam no diagnóstico depois.
Quando os movimentos pararem, mantenha a criança deitada de lado e aguarde que ela recupere a consciência aos poucos. Não a deixe sozinha e continue ao lado dela até que esteja totalmente desperta.
Se você estiver com o celular por perto e houver outra pessoa no ambiente, peça para ela filmar o episódio. Um vídeo curto é um recurso valioso para a neuropediatra classificar o tipo de crise — mas isso nunca deve tirar a sua atenção da proteção da criança.
O que nunca fazer durante uma crise
Algumas atitudes muito difundidas atrapalham em vez de ajudar e podem machucar a criança:
Não coloque nada na boca da criança — nem o dedo, nem colher, nem pano. Não existe risco de "engolir a língua", e objetos na boca quebram dentes, causam ferimentos e provocam engasgo.
Não tente conter os braços e as pernas à força. Isso não encurta o episódio e pode causar luxações ou fraturas.
Não ofereça água, comida ou remédio pela boca enquanto a criança não estiver totalmente consciente — o risco de engasgo é alto.
Não jogue água nem sacuda a criança para tentar interromper o episódio. Nada disso funciona e só aumenta o estresse do momento.
Não deixe a criança sozinha e não a leve no colo andando durante a crise, pelo risco de queda.
A Associação Brasileira de Epilepsia reúne esses cuidados no protocolo CALMA, criado para orientar qualquer pessoa a ajudar durante uma crise convulsiva, mesmo sem formação na área da saúde.
Quando chamar o SAMU (192)
Ligue para o SAMU (192) se a crise durar mais de 5 minutos, se for a primeira crise da criança, se uma crise começar logo após a outra sem recuperação da consciência, se a criança tiver dificuldade para respirar ou ficar com os lábios roxos depois, se a crise acontecer dentro da água, ou se houver ferimento na queda.
Ao falar com o atendente, informe de forma objetiva: a idade da criança, há quanto tempo o episódio começou, como ele está acontecendo, se é a primeira vez, e se a criança tem alguma doença conhecida ou usa medicação. Essas informações orientam a prioridade do socorro.
Enquanto espera o socorro chegar, mantenha a criança deitada de lado, continue observando o relógio e não a deixe sozinha. Mesmo quando o episódio passa antes da ambulância, a primeira crise sempre precisa de avaliação médica depois — no pronto-socorro ou com a neuropediatra, conforme a orientação recebida no 192.
O que acontece depois da crise
Passada a crise, é comum a criança ficar sonolenta, confusa, com dor de cabeça, cansaço e, às vezes, dor muscular. Essa é a fase pós-crise (pós-ictal) e pode durar de alguns minutos a algumas horas. É esperado e não é sinal de piora.
Deixe a criança descansar deitada de lado, fale com calma e não force que ela se levante ou responda perguntas antes de estar pronta. Fique por perto até que esteja completamente desperta e reconhecendo o ambiente. Quando ela estiver mais acordada, explique de forma simples o que aconteceu: crianças costumam acordar assustadas ou com vergonha, e acolher esse momento ajuda a reduzir o medo de novas crises.
Procure atendimento de emergência se, na recuperação, a criança não acordar depois de 10 a 15 minutos, tiver vômitos persistentes, febre alta com rigidez na nuca, dificuldade para respirar, ou se você notar fraqueza que só afeta um lado do corpo. Nesses casos, ligue novamente para o 192.
Anote tudo o que você observou: horário de início, duração, como foi a crise e como a criança ficou depois. Esse relato é uma das informações mais úteis para o médico na hora de investigar a causa.
Quando procurar uma neuropediatra
Toda primeira crise precisa de investigação. Na consulta, a neuropediatra levanta o histórico da criança — gestação, parto, desenvolvimento, doenças na família, o que aconteceu antes e durante o episódio — e faz o exame clínico e neurológico. A partir daí, pode solicitar exames complementares.
O mais comum é o eletroencefalograma (EEG), que registra a atividade elétrica do cérebro e ajuda a entender a origem da crise. É um exame indolor, que não usa radiação e pode ser feito em crianças. Em algumas situações, a neuropediatra também pede exames de imagem ou de sangue para descartar causas específicas.
Essa avaliação ajuda a diferenciar uma crise isolada — que pode não se repetir — de uma epilepsia, em que as crises voltam sem um fator desencadeante claro. Cada situação tem uma conduta diferente, e é a investigação que define qual é a do seu filho, além de indicar se há necessidade de tratamento contínuo.
Nem todo comportamento que preocupa os pais indica uma condição neurológica. Vale entender, por exemplo, a diferença entre TDAH e o comportamento esperado para a idade, e conversar com a neuropediatra sempre que algo fugir do padrão habitual da criança — inclusive episódios curtos de "desligar" que podem passar despercebidos em casa e na escola.
Se a criança já tem epilepsia: tenha um plano
Quando a epilepsia já está diagnosticada, o objetivo passa a ser reduzir a frequência das crises e organizar a resposta para quando elas acontecerem. Alguns pontos ajudam no dia a dia:
Mantenha a medicação nos horários combinados e não suspenda por conta própria, mesmo que a criança fique meses sem crises. Mudanças na dose são sempre definidas pela neuropediatra.
Combine com a médica um plano por escrito: como é a crise habitual da criança, o que fazer, quanto tempo esperar antes de acionar o 192 e se há medicação de resgate prescrita.
Informe a escola. Professores e cuidadores precisam saber reconhecer a crise, aplicar os primeiros socorros e ter o contato dos responsáveis à mão.
Mantenha um diário de crises com data, horário, duração, possíveis gatilhos (sono ruim, febre, esquecimento da medicação) e como a criança se recuperou.
Cuide dos gatilhos evitáveis: rotina de sono regular, refeições sem grandes intervalos e acompanhamento de quadros de febre.
Vale lembrar que a maioria das crianças com epilepsia leva uma vida escolar e social comum. Com o diagnóstico definido e o tratamento em dia, muitas ficam longos períodos sem crises. Evite restrições desnecessárias: atividades como esporte e natação costumam ser liberadas com supervisão adequada, sempre conforme a orientação da neuropediatra para o caso do seu filho.
Crianças com epilepsia costumam se beneficiar de um cuidado que envolve mais de um profissional. Entenda como funciona o acompanhamento multiprofissional na infância, que reúne a neuropediatra e outros especialistas em torno do mesmo plano de cuidado.
Este conteúdo é educativo e não substitui uma avaliação médica individualizada. Em uma emergência, ligue para o SAMU (192). Para investigar uma crise ou acompanhar a epilepsia do seu filho, procure uma neuropediatra.
Vídeo de referência: conteúdo original publicado no Instagram da Clínica da Criança Minimundo.
Pode colocar algo na boca da criança durante uma crise epiléptica?
Não. Nunca coloque o dedo, colher, pano ou qualquer objeto na boca. A pessoa não engole a língua durante uma crise, e objetos na boca podem quebrar dentes, causar ferimentos ou provocar engasgo. Apenas vire a criança de lado e proteja a cabeça.
Quanto tempo dura uma crise epiléptica?
A maioria das crises dura de 1 a 3 minutos e termina sozinha. Uma crise que passa de 5 minutos, ou várias crises seguidas sem recuperação da consciência, é uma emergência: chame o SAMU (192) imediatamente.
Toda convulsão é epilepsia?
Não. A convulsão é um sintoma e pode ter várias causas, como febre alta, privação de sono ou alterações metabólicas. Epilepsia é o diagnóstico dado quando as crises se repetem sem um fator desencadeante claro. A avaliação neuropediátrica faz essa distinção.
O que fazer se for a primeira crise do meu filho?
Proteja a criança de quedas e engasgos, deite-a de lado, marque o horário e observe. Se a crise passar de 5 minutos, ligue para o 192. Mesmo que passe sozinha, procure atendimento médico depois: a primeira crise sempre precisa de investigação.
Preciso levar a criança ao hospital mesmo se a crise passou sozinha?
Se foi a primeira crise, sim. Se a criança já tem epilepsia diagnosticada e a crise foi curta e igual às habituais, siga o plano combinado com a neuropediatra. Procure emergência se houve ferimento, dificuldade para respirar ou uma crise mais longa que o normal.
Guardar o passo a passo dos primeiros socorros de uma crise epiléptica em crianças — proteger, deitar de lado, cronometrar e chamar o 192 quando necessário — deixa qualquer adulto mais preparado para agir com calma. Depois do susto, o próximo passo é investigar a causa com uma avaliação neuropediátrica.
Para agendar uma avaliação com a neuropediatra da Clínica da Criança Minimundo, entre em contato pelo WhatsApp.
Dra. Bianca Dourado Coêlho — Neuropediatra — CRM-PI 5248 RQE 3872
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